GENEALOGIA DA OBSCENIDADE:

Da pornificação do olhar à politização da nudez

Nos dois projetos trienais anteriores, foram examinadas algumas características do fenômeno conhecido como "culto ao corpo" nos discursos midiáticos e artísticos contemporâneos, sempre com o intuito de identificar suas implicações na produção de um tipo de subjetividade diferenciada das vertentes modernas. Continuando essa pesquisa, agora pretendemos detectar os impactos dessas transformações no que se considera obsceno. Assim, desdobrando sempre uma perspectiva genealógica, parte-se aqui da suspeita de que estaria ocorrendo um deslocamento nessa definição de obscenidade. Atualmente, as imagens de nudez e às alusões à sexualidade explícita se multiplicam na paisagem midiática e artística; portanto, estas não parecem mais capazes de provocar fortes mal-estares na moral vigente, tendo deixado de suscitar as polêmicas e os ímpetos censores que costumavam causar até meados do século passado. Contudo, isso não significa que tenham ocorrido somente movimentos "libertadores", no sentido de flexibilizar e relaxar esses tabus relativos a certas imagens e práticas corporais. O processo histórico é mais complexo, envolvendo algumas reformulações importantes que merecem ser mapeadas. Enquanto as imagens de nudez e erotismo não cessam de proliferar, cresce também a tendência a reprovar somente algumas delas por serem "obscenas" ou "indecentes" em novos sentidos, sendo condenadas à invisibilidade com argumentos que reivindicam algo da ordem da pureza e da lisura nas superfícies corporais, e não mais por ofenderem os valores morais oitocentistas, ligados aos cânones da beleza clássica e aos pudores sexuais tipicamente burgueses. As novas atitudes convivem, porém, com um variado conjunto de resistências e disputas, particularmente no âmbito das artes visuais contemporâneas, mas também nos jogos midiáticos e nas múltiplas manifestações da internet. Nessas lutas parecem confluir dois vetores que constituem o foco desta pesquisa, em tensão com a mencionada purificação. Por um lado, uma gradativa pornificação do olhar que teria se iniciado nos albores da era moderna, com a secularização do mundo e dos corpos, e cuja força hoje talvez esteja se esgotando ou se reconfigurando, apontando para uma eventual despornificação dos olhares. Por outro lado, uma inovadora politização da nudez, que envolve a exposição voluntária do próprio corpo desprovido de roupas -- sobretudo, o feminino -- com a intenção de reivindicar diversas causas numa diversidade de espaços públicos: das ruas das cidades às telas midiáticas, incluindo aí as redes sociais da internet. Nesse quadro de intensas e velozes mutações, a noção de obscenidade não parece ter sido abandonada por completo, mas atravessa importantes redefinições, assim como os padrões de beleza e seus ambíguos rigores.

 

 

Projeto desenvolvido com apoio do CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, 2015-2018) e da FAPERJ (Cientista do Nosso Estado, 2018-2020).